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sábado, 1 de outubro de 2011

290 eu e o meu íntimo prémio NOBEL português

289 eu e ainda 1110

TEATRO

A triste lei dos anos!
Sou agora o inverso de menino.
Conheço de antemão os desenganos,
Sonho que sonho, penso que imagino.

Arquitecto na areia,
A saber que o castelo vai cair.
Quando a ilusão semeia,
Sinto a desilusão que hei-de sentir.

Comprei com sofrimento a lucidez
De não ser inocente.
E faço dois papéis no entremez:
O do que julga ver, e o do vidente.

288 eu e 947

Coimbra, 15 de Janeiro de 1960.

287 eu e1522

SINTONIA

Tarde triste.
É o Outono doente que começa.
Cada folha parece que tem pressa
De morrer.
Madura e fatigada, a natureza,
Roída por não sei que súbita incerteza,
Até nos frutos quer apodrecer.

E há um desalento igual dentro de mim.
Uma renúncia assim
Calada e conformada.
Perdi o gosto verde de cantar.
A emoção vem à tona e degenera,
Infecada, a negar
As muitas flores que dei na Primavera.

286 eu e1486

PRESCRIÇÃO

Deixa passar as horas
Sem as contar.
Alheia a cada instante,
Vive, a viver a vida, a eternidade.
Feliz é quem não sabe
A própria idade
E em nenhum ano pode envelhecer.
Dura encantada na realidade.
Negar o tempo é o modo de o vencer.

285 eu e 1261

REGRESSO

Quanto mais longe vou, mais perto fico
De ti, berço infeliz onde nasci.
Tudo o que tenho, o tenho aqui
Plantado.
O coração e os pés, e as horas que vivi,
Ainda não sei se livre ou condenado.

284 eu e 1786 de português

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

277 eu e "A Vida não Cabe numa Teoria"

A vida... e a gente põe-se a pensar em quantas maravilhosas teorias os filósofos arquitectaram na severidade das bibliotecas, em quantos belos poemas os poetas rimaram na pobreza das mansardas, ou em quantos fechados dogmas os teólogos não entenderam na solidão das celas. Nisto, ou então na conta do sapateiro, na degradação moral do século, ou na triste pequenez de tudo, a começar por nós.
Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem.
A vida é o que eu estou a ver: uma manhã majestosa e nua sobre estes montes cobertos de neve e de sol, uma manta de panasco onde uma ovelha acabou de parir um cordeiro, e duas crianças — um rapaz e uma rapariga — silenciosas, pasmadas, a olhar o milagre ainda a fumegar.

Miguel Torga, in "Diário (1941)"

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

268 eu e a bela escrita

É impossível que o tempo actual não seja o amanhecer doutra era, onde os homens signifiquem apenas um instinto às ordens da primeira solicitação. Tudo quanto era coerência, dignidade, hombridade, respeito humano, foi-se. Os dois ou três casos pessoais que conheço do século passado, levam-me a concluir que era uma gente naturalmente cheia de limitações, mas digna, direita, capaz de repetir no fim da vida a palavra com que se comprometera no início dela. Além disso heróica nas suas dores, sofrendo-as ao mesmo tempo com a tristeza do animal e a grandeza da pessoa. Agora é esta ferocidade que se vê, esta coragem que não dá para deixar abrir um panarício ou parir um filho sem anestesia, esta tartufice, que a gente chega a perguntar que diferença haverá entre uma humanidade que é daqui, dali, de acolá, conforme a brisa, e uma colónia de bichos que sentem a humidade ou o cheiro do alimento de certo lado, e não têm mais nenhuma hesitação nem mais nenhum entrave.
Miguel Torga, in "Diário (1942)"

sábado, 17 de setembro de 2011

262 eu e Serge Reggiani/Boris Vian

1. Arthur où t'as mis le corps.

2. Le régiment des mal-aimés.

3. Valse dingue.

4. Je bois.

5. Sermonette.

6. Sans blague.

7. J'ai pas d'regrets.

8. Fugue.

9. Le déserteur.

10. De velours et de soie.

11. Dernière valse.

12. Que tu es impatiente, la mort.

261 eu e Alexandre O'Neill

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

260 eu e Fernando Pessoa

Há uma musica do Povo,
Nem sei dizer se é um Fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado…

Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser…
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver…

Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção…
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração…

Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido…
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!

domingo, 21 de agosto de 2011

195 eu desde que me conheço

e desde então

Palavra


A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
...
Miguel Torga